Conversa Fora
Lidando com um enfermo
Por Lucas von Mühlen Baroni Silveira*
Quando me pediram pra fazer um texto dando “dicas” para a mulherada que convive com homens fanáticos por futebol, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: não finja ser outra pessoa para agradar o namorado/marido/filho/amigo/etc. Se você não entende NADA de futebol e tampouco gosta do esporte bretão, assuma esse papel. Achamos até “bonitinha” a sua ignorância. O que irrita são os comentários estúpidos e o interesse forçado com a nítida intenção de agradar. Poupe seu esforço: não agrada nadinha.
Adoramos mulheres que gostam de futebol. É legal ter ao seu lado alguém que te entende nos momentos de êxtase e desespero. Mas, acredite, ninguém perde pontos por não gostar. Basta RESPEITAR A DOENÇA do fanático em questão. E é aí que a coisa complica. Muitas vezes os atritos se dão por ignorância, e não por má vontade. Não esqueça que está lidando com um doente. Vou tentar esclarecer alguns pontos.
Quando resolver perguntar ao queridão quanto foi o placar do último jogo, em caso de vitória os comentários estão liberados. Pode falar a besteira que quiser, exaltar “como esse time é bom”, perguntar como foram os gols, se tinha muita gente no estádio/bar, tudo. Em caso de derrota diga apenas “ok” ou “putz” e o abrace. Um abraço não muito demorado, senão já fica dramático demais. Em caso de empate, por via das dúvidas não faça e nem diga nada. O empate pode significar muitas coisas. Depende do contexto.
Se você torce por outro time, JAMAIS faça piadinha pós-derrota. Principalmente nas horas seguintes ao apito final. A chance de ele acabar o namoro/casamento ou te deserdar como mãe são gigantescas. Mas não esqueça: se você torce pelo MESMO time e fizer comentários negativistas, tipo: “mas tá ruim esse nosso time, hein? Vamos conseguir ganhar de quem desse jeito?”, saiba que a ira do rapaz será igual OU MAIOR. Na dúvida, falar nada é sempre uma boa alternativa.
Com a bola rolando vale o mesmo. E nesse caso a coisa fica ainda mais delicada. Seja no estádio ou na TV, jamais faça piadinhas enquanto seu time perde. Se não resistir e quiser MUITO fazer alguma, mesmo que ele te ame certifique-se que não está armado. Sério. Estamos falando de uma doença. “Nossa, não estamos conseguindo ganhar nem do América! Tá feia a coisa, hein?! Por que eles não chutam a bola em direção ao go… POW! POW! POW!” Brincadeiras à parte, evite cutucar a fera com vara curta. E no futebol a vara é SEMPRE curta.
Existem dois outros erros graves que devem ser evitados enquanto a bola está rolando. Sobretudo em jogos importantes, nos quais o nosso amigo fanático provavelmente estará bastante tenso. O mais comum é fazer perguntas idiotas. Querer saber da linha de impedimento, do carro-maca, dos quero-queros. Isso irrita. Pergunte no intervalo, pergunte amanhã, pergunte no ano que vem, PERGUNTE AO RAIO QUE O PARTA. Chega a ser cômico o indivíduo roendo os ossos dos dedos (as unhas já se fora a essa altura) e a pessoa nada munida de bom senso perguntando: “amor, por que o goleiro usa roupa diferente?” PORQUE ELE É MAIS FASHION QUE OS DEMAIS, AGORA FICA QUIETINHA, POR FAVOR!
E não menos irritantes são os comentários muito RACIONAIS. Se o atacante do nosso amigo fanático cair na área num jogo tenso e ele esbravejar, urrar, soquear a cadeira e maldizer a nona geração do árbitro pedindo pênalti, jamais diga algo como “ai, mas acho que não foi nada mesmo. Nem encostou no cara, nessa câmera dá pra ver bem. Se jogou. O árbitro vem apitando bem a partida”. CALABOCAQUENINGUÉMPERGUNTOU! Deixa a gente viver essa ignorância primitiva em sua plenitude. Ninguém pediu racionalidade e razoabilidade num momento desses. Fica a dica.
Importante: se você é daquelas mulheres que entende e gosta de futebol (e PRINCIPALMENTE se é das que NÃO entende) e convive com um homem apaixonado pelo time RIVAL, dica pros dois: falem sobre tudo, até mesmo sobre o gosto das alcaparras e a reprodução dos gafanhotos africanos, mas não sobre futebol. Ok, podem falar do Messi, do Barcelona, da Seleção, etc. Mas não entrem em “DISCUSSÃO Gre-nal”, por exemplo. Quatro palavrinhas mal colocadas em 20 segundos de infelicidade podem destruir o que bilhões de belas palavras construíram em anos. Simples assim. Evitem ao máximo. E quando for inevitável falar de seus times, não peguem pesado. Parece bobagem, mas é realmente um terreno perigoso.
Já ia me esquecendo: não tentem comparar a paixão do nosso amigo fanático à outra coisa. Não tentem compensar uma ida ao estádio com uma ida ao shopping. Não tente obrigá-lo a assistir a novela na quinta-feira porque vocês assistiram a um jogo na quarta. São coisas diferentes. Vocês não amam a novela e o shopping. Ok, vocês podem até amar, mas não iriam CHORAR se o shopping fechasse ou se a novela acabasse. Tá, na verdade vocês talvez fizessem isso. Mas enfim, não tentem equiparar essa doença a outros lazeres quaisquer.
E pra finalizar, se cansarem do fanatismo dele, jamais façam a pergunta: “o futebol ou eu?”. A chance de ele optar pelo futebol gira em torno de 87,5%. Mesmo se estivermos falando do seu FILHO. Trate o rapaz como um doente, pois é o que de fato somos. E lembre-se: mesmo seguindo todas minhas dicas, ainda assim vocês terão discussões por causa do futebol. E muito provavelmente por culpa DELE. Cabe a vocês serem as racionais da relação.
Mas no fundo a gente ama todas vocês. Muito mais do que nossos times. Só que é uma doença. Uma doença que, pasmem, nos faz um bem inexplicável.
Tagged fanáticos por futebol, futebol, Lucas von Mühlen Baroni Silveira, mulher e futebol, relacionamento



















Flaviafev 13, 2012 at 13:23
O problema do viciado em futebol é que, além do jogo do seu time, tem o envolvimento com TODOS os campeonatos do mundo, o horário de todos os programas de tv que envolvem o tema, o videogame, sem falar no estádio e no bar. E nas conversas que trazem nomes de jogadores que já nem tão vivos mais.
Alinefev 13, 2012 at 17:54
Isso também serve para as amigas/família que TENTAM conversar contigo durante o jogo, ou ficam com vergonha da tua falta de racionalidade ao gritar com a TV/Telão/No estádio: Não quer “passar vergonha” favor não me acompanhar a esse evento futebolístico. Se o jogo for do rival, o mesmo vale: Pouco me importa se o fulano deixou da ciclana: Eu tô secando e deu!
E sim, não importa quantos anos faz que meu time não ganha sei lá o quê, ou se o seu time ganhou sei lá o que… Não é um bom jeito de tentar de começar ou prolongar uma conversa.
Momento desabafo!
Nícolas Silvafev 13, 2012 at 18:18
Minha namorada e eu olhando GRExJUV e ela pergunta: “Por que o uniforme do Grêmio tá todo azul, não era pra ser com as listrinhas aquelas”?
ME CAIU OS BUTIÁS DO BOLSO.
OBS: O Grêmio táva perdendo.
Marlonfev 14, 2012 at 12:16
Cara… Esse foi o melhor texto que já li sobre o tema!! PARABÉNS!!
André Kielingfev 14, 2012 at 12:37
Perfeito!
Jéssica Moraesfev 14, 2012 at 15:04
As vezes me encontro na situação contrária… A fanática por futebol dos relacionamentos sou eu! Heheh, seja jogo do Grêmio, ou não. E eu não abro mão do futebol de quarta e domingo, e ir aos jogos
Seguiremos copando.
Brunafev 14, 2012 at 16:06
Engraçado ele escrever sobre isso e eu me identificar horrores… Só que o contrário. EU sou a parte fanática SEMPRE! =D
Caroline Diasfev 14, 2012 at 21:44
ahahahahahah.. Amei o texto e vou seguir todas as dicas dentro do possível…
Afinal o meu namorado não é doente só pelo time dele, mas pelo futebol em geral… Então complica um pouco as vezes.
Mas… Parabéns pelo texto, achei sensacional!!
Lucasfev 14, 2012 at 23:30
Fico o oro!!! Não precisa dizer mais nada……ou precisa….heheh
Esther Keplerfev 15, 2012 at 18:45
No meu caso, eu e meu marido nunca teremos problema algum….sou tão fanática quanto ele, não perdemos um jogo e, vemos juntos todos os jogos que derem na tv, mesmo não sendo do Grêmio…Sempre fui fanática pelo Tricolor e encontrar o amor da minha vida tão fanático tb não poderia ter sido melhor…^^
Myron Borgesfev 15, 2012 at 23:56
Nunca teremos problemas mesmo… minha mãe dizia “quando tu casar vai ter que parar de ir no estádio!!! Que mulher vai querer ir em jogo do Grêmio ctgo?”…. hehehehe… só podia ser tu mesmo né meu amor???? TE AMO!!!!
ALEXANDRE PICOLIfev 15, 2012 at 21:14
BHÁ!!!! DA PRA VER QUE O AUTOR DO TEXTO É GREMISTA FANATICO, DEVE TER PERDIDO ALGUMAS NAMORADAS NOS ÚLTIMOS ANOS,´JÁ EU, SOU TÃO FANÁTICO QUANTO , SÓ QUE COLORADO, TOU COM A MESMA MULHER A OITO ANOS, ELA TAMBÉM ME FAZ PERGUNTAS ABSURDAS DURANTE O JOGO, MAS NÃO ME IMPORTO, NÃO FICO TÃO ESTRESSADO, POR QUE SERÁ!?. PARABENS PELO TEXTO, APESAR DE SER TRICOLOR, AO MENOS ESCREVE BEM.
Tomazfev 16, 2012 at 12:49
Baita texto, Lucas! apesar de nunca ter me relacionado com “fanáticas”, imagino como deve ser legal discutir sobre futebol às vezes. Mas, por outro lado, namoradas “afutebolizadas”, mesmo que inconscientemente, acabam por “respeitar” o momento do futebol com os amigos que o cara tanto preza. Mas acho bem legal também uma guria que torce e assiste a jogos (sem gritar muito)
Paulo_PoAfev 16, 2012 at 21:29
E um dia que uma me pediu, impressionada: “O que faz esse ai de preto correndo no meio dos caras?”
E eu: “Esqueceu de botar o uniforme!”
Mas a felicidade rolou!
Dá-lhe Grêmio!
Abr.,
Paulo
ADRIANO GREMISTAfev 17, 2012 at 2:04
Perfeito. Poderias abordar também a questão do “enfermo” querer comparecer em TODOS os jogos… pessoas “normais” (principalmente companheiras que não gostam de futebol) não entendem isso… te oferecem pay per wiew, cerveja e conforto em casa, mas nada se compara a assistir a um jogo no Olímpico. Há também a questão de ficar (ou continuar) ouvindo o rádio um bom tempo depois de ter encerrado o jogo, de preferência até encerrarem-se as transmissões, e a tradicional secação do rival, quando sempre surge aquela pergunta: é jogo do Grêmio de novo ?? Porque tu tá ouvindo então ?? E o meu caso é pior, não sou doente só pelo Grêmio, sou doente por futebol em geral… só não me interesso pela seleção…
ADRIANO GREMISTAfev 17, 2012 at 2:09
Ele sentiu que o meu caso era grave naquele fatidico jogo contra o Náutico… minha parceira de Olímpico é a minha mãe, mas por superstição fui assistir o jogo na casa da namorada… quando o Beltrame marcou o 2º penalti, literalmente surtei… ela pegou a chave e disse que ia sair e me deixar sozinho, pois não queria me ver morrer na frente dela… depois, na defesa do Galatto e no gol do Anderson, fiquei travado, olhando fixamente a tv, sem entender o que estava acontecendo e também imagina que seria em vão, pois faltava muito tempo… felizmente a história todos conhecem… e fomos tomar muitas cevas na Goethe…
Jaianafev 18, 2012 at 0:21
A minha situação é muito diferente. Meu namorado é um gremista fanático que sabe tudo e mais um pouco sobre o time do coração, já eu sou colorada fanática e sei tudo que julgo necessário saber. No nosso caso as piadinhas são comuns e não acho que prejudique, pois quando ele fala algo do Inter eu fico séria e retruco, ficamos nos ”inticando” por algum tempo até eu ou ele rir da situação. O problema é assistir o greNAL juntos, eu odeio quando ele fica comemorando o gol, então o nosso acordo é: ou não assistimos o greNaL juntos ou ninguém comemora muito o gol (o que realmente é muito difícil e um acaba relevando a atitude do outro). Quando se trata de jogos alheios eu fico junto e procuro outra coisa pra fazer como, por exemplo, ler um livro ou ficar na internet, faço isso sentada no sofá ao seu lado e presto atenção quando ele fala ”amor, olha que golaaaço, olha olha!” Portanto, há exceções sobre o assunto.
Lucianafev 18, 2012 at 0:55
Adorei o texto! Até pq a fanática sou eu, e realmente me irrita os comentários sem noção em qualquer momento, seja durante o jogo ou depois de acabado. E o pior, eu não sou só fanática pelo Gremio, é pelo futebol em geral.
alex costafev 24, 2012 at 12:51
A vantagem de uma namorada ou esposa de um fanático por futebol, é aquela escapadinha quando o mesmo se ausenta para gritar como um retardado ,ou chorar como uma menininha , por seus idolos multimilionários correndo atrás de uma bola, em um estádio lotado arriscando levar uma sova e pagando pra ver !!!… aquela escapadinha com um amigo para a pratica de atividades mais interessantes em uma cama de motel ou até mesmo na própria casa do torcedor que dá tudo pelo time ! Eu particularmente não gosto de futebol mas acho bem interessante estes dias de Grenais, nestas ocasiões ficam tantas flores bonitas e sozinhas esperando para serem regadas …
halfmar 2, 2012 at 4:16
Sou colorado mas admiro muito seus textos,acho que você define as situações reais do dia a dia entre fanáticos & leigos ou fanáticos & fanáticos e aqui em casa , somente eu sou fanático, minha esposa também é colorada.
Se ela não fosse colorada desde pequena , do tempo de escola pelo que vi nas fotos, eu juraria que ela nem tinha time, hehehe,mas me faz cada pergunta .
Estes dias ela chegou do trampo e disse que tinha uma dúvida após ouvir uma discussão na lancheria a qual trabalha, queria saber se o DAGOL, era do INTER ou do GRÊMIO.
A minha sogra detesta futebol, mas pelo menos, após 12 anos de convivência, elas sabem que em dia e hora de jogos do inter, grêmio ou qualquer outro jogo importante de qualquer campeonato,eu não atendo telefone, não recebo visitas,não dou palpite sobre nada que não seja sobre o jogo,e de preferência nem falam comigo neste momento.
Principalmente,porque eu moro em casa e numa avenida, bem grande de Poa, assim eu imagino que eu devo ser um verdadeiro inferno pros caras, além disso minhas 3 bandeiras fecham a frente da casa de ponta a ponta estendidas.
Só que após as terríveis tropeços que acontecem eu fico lá frente, e aceito toda a zoação durante alguns dias, não fujo não.
Manual do futebol brasileiro | Seis Mariasabr 18, 2012 at 17:00
[...] Lidando com um enfermofevereiro 13, 2012Ano do Dragãojaneiro 24, 2012Sammy loves New Yorkmarço 9, 2012 NewsReceba as News das Seis Marias [...]
Eliana Tricolorabr 20, 2012 at 12:03
No meu caso, seria “Lidando com uma enferma.”