Por aí
Paulistanês para viagem
Por Marsh*
Mudar-se de cidade, pelo menos dentro do Brasil, não é um processo tão complexo quanto ir morar em outro país. A língua é a mesma, a cultura também. Mas aí, quando tu – ou melhor, você – jura que está entendendo o que os seus novos amigos/colegas/conhecidos falam, rola um “ãhn?”.
Quando cheguei em São Paulo, minhas amigas gaúchas que moravam por aqui me alertaram sobre alguns casos, mas vários outros aprendi COM A VIDA. Uns são divertidinhos, outros são – na minha humilde opinião – irritantes. E compartilho com você, caro leitor, toda a minha sabedoria linguística paulistana. Esqueçamos o “meu, me dá um xops e dois pastel” e partamos para conhecimentos mais avançados.
obs.: ah, vale lembrar que “paulistano” é quem mora na capital e que “paulista” é quem mora em qualquer lugar do estado. Como só morei na terra da garoa, não vou me aventurar a generalizar as expressões ao paulistês.
DE: significa periodicidade. É tipo assim: “Eu tenho aula de sábado.” Se você disser “Eu tenho aula no sábado” significa que você só tem aula no sábado que está por vir. Acho que os gaúchos dizem “eu tenho aula sábados, nos sábados, aos sábados”. Mas aqui não. “De sábado” é uma expressão bem comum.
FÓME: essa é um detalhe fonético. Palavras cujo O é seguido de M (fome, come, homem etc) têm o O agudo. Então se diz “FÓME”.
BALADA: dispa-se dos seus preconceitos. Aqui, quem é MUDÉRNU e XÓVEN diz “balada” mesmo. Quando eu digo que em Porto Alegre isso é coisa de tiozão, os paulistanos ficam muito abismados.
OBRIGADO EU: o pessoal aqui não diz “de nada”. Quando alguém disser “obrigado”, você responde “obrigado eu”.
ESCOVAR O DENTE: o pessoal aqui tem um dente só na boca. Não há outra explicação pra isso: você nunca escova os dentes. Você escova “o dente”.
SUSSA: esse aí, logo que cheguei, falava errado. Eu achava que era o diminuitivo de “sucesso”, mas não! Significa “sossegado”. Tipo “ah, eu vou a pé pro trabalho. É sussa.” Entendeu? É no sentido de “tranquilo, fácil”. “Comprar pela internet é cada vez mais sussa”.
ZUAR: esse verbo é tipo “bah”, porque serve pra muuuuuita coisa. Significa ruim. “Essa comida tá zuada”, “acordei meio zuado” (se você acordou gripado, por exemplo) e o clássico “que, meu? tá me zuando?” quando alguém estiver gozando (ui, que delícia) de você.
LANCHE: essa é importante, porque é difícil se dar conta desse detalhe sem uma explicação nativa. “Fazer um lanche” é a mesma coisa que pra nós: “lanchar”. Mas “comer um lanche” significa especificamente “comer um sanduíche”. Engraçado, né? E quando eu digo pra um paulistano que isso é meio bizarro, ele não entende porque. Então, se a moça do McDonald’s te perguntar “é só o lanche?”, ela está dizendo “você não vai querer a batata e o refri?”.
ENTÃO: confesso que essa eu acho irritante. É que dizer “então” vicia. Eles usam no começo da frase. Digo, de QUALQUER frase. “Quanto que são 47 + 51?” “Então… 98.” haha sério! Eles usam em frases que eles querem pensar antes de falar… ou quando o assunto é complicado… ou… como muitos paulistanos, a qualquer momento!
VAI: pra mim, a expressão que eu mais gosto. É difícil explicar como usar…. mas você entende, vai?
* Marsh é formada em jornalismo em Porto Alegre, mas em São Paulo traveste-se de arquiteta de informação. Mantém o blog Cabid.es , onde escreve dicas de lojas virtuais de decoração, moda e papelaria.
















Lucianafev 24, 2012 at 15:42
ENTÃO… Eu sempre morei em São Paulo (capital), mas sou paulista, pq nasci em São Caetano do Sul, uma cidade do ABCD, bem pertinho daqui… Se for para colocar acento em Fome, eu diria que dizemos Fôme, nunca vi alguém com sotaque paulistano dizendo Fóme. “Obrigado eu” (do correto “Eu que agradeço”?), só é usado quando vc sente que a outra pessoa também te fez um favor, como por exemplo, o caixa do supermercado que faz toda conta para você e no final agradece por você ter efetuado uma compra. E sobre o Então… eu costumo utilizar também quando to querendo contrariar o que foi dito, mas to meio sem jeito…
marshmar 21, 2012 at 19:30
oi, Luciana! Obrigada por dar o teu “depoimento” sobre paulistanês!
Sabe que acho que isso do “fóme” não é muito audível pra quem é daqui de SP. Mas eu te juro que presto muita atenção quando alguém diz isso, e os meus amigos paulistanos acabaram concordando que dizem “ó” mesmo. hehe
E isso do “obrigado eu”, pelo menos no Rio Grande do Sul, a gente diz “eu que agradeço” ou, na fronteira, a gente diz “merece”. Eu AMO o “merece”! É muito fofo!
Mas você tem razão: o “obrigado eu” tá mais pra “eu que agradeço” que pra “de nada”